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Não há excesso de liberdade se aqueles que são livres são responsáveis. O problema é liberdade sem responsabilidade.

Nascer incomoda!

Nascimento do Novo Homem - Salvador Dali


Quando acabei de nascer, senti um enorme desconforto, o frio entranhava-se-me na pele, chorei que nem um desalmado sem corpo, era mais pele e osso, a bem dizer, mas apesar de tudo, aquilo que mais me incomodou, foi mesmo a claridade, era mesmo muita luz, nem conseguia abrir os olhos como devia ser. Senti uma necessidade desenfreada de voltar para o sítio donde me tinham tirado. Mas nasci, e ainda por cima com uma saúde para dar e vender, resistente como ó caraças aos tombos que ia dando… Já não havia mesmo nada a fazer, senão esperar lentamente que a morte me chame bem lá no fundo no eco da vida.
Mas percebi, que isso era irreversível ao meu desejo, e quanto mais ele aumentava, mais saía gorado…
Foi quando olhei bem para aquela fêmea que me apertava nos braços… Shiiii, men… tão grande que ela é. Só um braço dela era do meu tamanho. E depois, enfiou-me um pedaço de carne na boca, acho que era uma teta, mas eu não me calava nem sabia o que fazer com aquilo… Foi quando senti uma borbulha naquele imensa teta, em ponto grande entrar-me na boca, demasiado grande para o seu tamanho, e foi quando senti entrar um líquido muito bom, escorrer-me pela goela abaixo e lá me calei finalmente. Senti-me muito melhor depois daquele liquido morno dentro de mim… E, adormeci no calor dos seus braços. Depois disso, tomei a minha pequena e débil consciência que aquela fêmea afinal me protegia do mundo exterior. Vim a saber mais tarde, que era a minha mãe. Porém, logo de imediato, apercebo-me de montes de gigantes à minha volta como mil olhos a olharem para mim… Que raio de sítio estranho este… Mas não há aqui ninguém do meu tamanho a quem eu pudesse pedir explicações do que se está a passar, é que ninguém mais entendia a minha linguagem, porque só sabia gritar em pranto…?
Mas de todos os que me olhavam, havia um que senti logo uma enorme simpatia por ele, era diferente dos outros, e tinha pelos no lábio superior… O gajo até era engraçado, pegou em mim, e levou-me ao ar… Uhauuu… Querem ver que vou voar… Mas não, não voei, só me lambuzou de seguida a cara toda ficando com ela encharcada devido aquele liquido viscoso da baba, grrrrrr. Bom, com tudo isto, percebi que aquele macho, era afinal o meu pai. O gajo era mesmo giro, e ria-se imenso para mim. Isto promete, afinal até não é assim tão mau como me pareceu inicialmente… Os restantes, vim a saber que eram as outras crias mais velhas vindas de outras ninhadas. Todos eles de tamanhos bem diferentes. Percebi entretanto, por que é que estava ali aquele grupo todo bem esquisito; que às vezes até assustavam-me com os seus gritos efusivos demonstrando contentamento exagerado por eu estar ali. Mas eu desatava logo a chorar, não gostava nada de barulho (ainda hoje não gosto; só à música lhe dou esse privilegio). Mas depois, muito devagarinho, lá entendi que afinal éramos uma família. Eheheh uma família… Tenho uma família para cuidar de mim. Que bom!..

E foi assim, que vim aqui parar a este universo do qual se desconhece os seus limites, sem sequer ter sido ouvido nem achado para tal… Bom, mas ainda bem, que em boa hora, ninguém interrompeu a minha gestação e nem sequer me perguntou nada; peste como eu era… ainda seria bem capaz de os mandar todos bardamerda naquela altura… Mas não encontrei o termo apropriado, e berrava simplesmente com todos os pulmões. E eu logicamente, não teria sido obrigado a passar por montes de situações infelizes e dolorosas… Mas por outro lado, também não teria tido o engenho nem a habilidade de mudar o rumo das coisas, de modo a suavizar os obstáculos que ultrapassei para apreciar a beleza da natureza enquanto lentamente crescia. E à medida que, ia cada vez tomando maior noção de mim próprio, das minhas limitações e dificuldades; como aquela pergunta padrão: que faço eu aqui… Quem é que afinal eu sou? E para onde vou… Só neste presente sei onde estou, como uma ténue certeza, num passado que entretanto já aconteceu ontem, num futuro do qual nunca tenho firmeza se ele virá a existir. E do qual esqueci fazer tais perguntas descabidas, porque entretanto, encontrei outras bem mais interessantes. Estou e pronto, final dessa ingrata questão…

E hoje, agradeço, àquela fêmea e àquele macho e dos quais tudo deles desconhecia, e me abriram uma porta para a vida, mostrando-me tudo o que eles sabiam, e outros tantos que fui descobrindo por mim, porque afinal, já tinha os olhos abertos para ver o amor que eles me transmitiam… E o primeiro amor, é sempre o de uma Mãe e de um Pai que parte desinteressadamente como uma mera dádiva de vida.

Actualmente, já não sei bem onde eles estão, não sei se algum dia os voltarei a encontrar. Mas sei muito bem o que eles fizeram, e deixaram imensos fios soltos para tecerem outras vidas, desiguais e todas diferentes umas das outras mas que nos unem como uma rendilha. E sempre que me olho ao espelho, todos os dias de manhã, uma boa parte deles, sei que sou eu. Num sentido mais lato do termo, e até mais aprimorada, cuja perfeição desencadeada é sempre dolorosa e lentamente alcançável, mas torna-se premente nunca desistirmos dos nossos ideais, para que em cada dia, não muito distante do instante, nos sentamos melhores connosco e sobretudo como pessoas humanas e pensantes. Por que entretanto, neste longo processo, aprendi a colmatar as dificuldades pelas quais eles passaram, e precavi-me a tempo com tais ensinamentos que me foram transmitindo quase instantâneo à medida que me desenvolvia, para que eu pudesse crescer, o melhor que eles souberam ensinar nessa precariedade do seu saber, neste atribulado acompanhamento quase constante até à sua etapa final, até há última derradeira e dramática despedida. Porém, quando a porta se fechou definitivamente para eles, tomei a plena consciência que o próximo a abri-la seria eu… E entre uma e outra etapa, nasce sempre um vazio difícil de suportar, e quão improvável de se preencher.
Sobreviveremos sempre, muito para além do impensável… Mas nascer, é de facto, sempre um processo simples, mas extremamente doloroso, tal como a morte.
Quem nos protegerá, quando chegamos realmente a ser grandes? Só nós próprios, conseguiremos isso, com a nossa persistência capacidade inteligente e da própria resistência que emana de dentro o conseguimos, sem nos apercebermos que ela lá está, bem no fundo de nós, mas está.
A nossa força interior, é uma das maiores terapias que nos faz transpor obstáculos inimagináveis… Acreditem sempre, que a maior dor não está na queda. Mas sim na vontade em nos querermos levantar de novo!


A irresistibilidade no incómodo da linguagem, que se sobrepõe a qualquer vontade expressa da consciência…
Saber a respeito e conhecer são coisas totalmente diversas. Uma age através do pensamento; a outra através da calma e do silêncio.