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Não há excesso de liberdade se aqueles que são livres são responsáveis. O problema é liberdade sem responsabilidade.

truz truz

Às vezes a gente não sabe bem se nos batem à porta por engano, por acaso, ou porque sim. A maior parte das vezes, quando espreitamos pela fresta e não conhecemos quem bate, voltamos para dentro nas pontas dos pés e fingimos que não estamos em casa. Outras vezes, em dias mais ousados, digamos assim, se ao espreitar gostamos do que vimos, abrimos a porta, que isto de passar a vida a bater com a porta na cara das pessoas não nos há-de levar muito longe.
Eu abri a porta. Devagarinho, a ver o que lá vem. Depois, sem perceber muito bem porque foi à minha porta que bateram, fiquei à espera de mais instruções. Enquanto espero, faço um chá, que os dias vão frios e perante qualquer coisa que se beba, sempre as línguas se soltaram.

Porque é que se dizem palavras obscenas?


Bocage e as Ninfas
Óleo de Fernando Santos. Museu de Setúbal




Em primeiro lugar porque existem, estão mesmo ali à mão de semear. Depois, e numa análise mais alargada, por variadíssimas razões, razões muito específicas nos diversos escalões etários onde são proferidas. As crianças aprendem-nas muito antes de completarem as cem palavras do seu vocabulário total e dizem-nas por ingenuidade, ainda envoltas naquele manto da descoberta do porquê, neste caso, do que é que quer dizer; os adolescentes como atavio da língua, talvez a experimentarem os primeiros gritos de liberdade; os adultos quando lhes faltam os argumentos e os velhotes porque na maioria das vezes já não se lembram o querem dizer.

Mas também as há que se desmarcam deste conceito geral, são as que aparecem associadas a sentimentos que não se conseguem exprimir de outra forma senão adornados com umas valentes caralhadas, precisamente. É algo que nos transcende, chega nalguns casos até a ser uma necessidade fisiológica. Começa aqui a batalha entre o vernáculo e a própria caralhada.

A sua origem é complexa. Tendo a porta de entrada na nossa infância, aparece como quase tudo nessa altura, como algo novinho em folha prontinho a ser utilizado. É talvez a primeira experiência prática que uma criança tem com o mundo vasto da hipocrisia. Sabe asneiras, o pai explica-lhe o que querem dizer, mas infelizmente não as pode repetir. Naquele contexto, enquadram-se num campo vocacionado unicamente à ofensa, e que lhe está vedado.

Mas elas lá irão permanecer latentes no subconsciente da criança até a autonomia que se adquire com o passar dos anos as fazer manifestar. Podem aparecer em forma de conflito interno, por exemplo: definem-nos como “pessoa correcta”, quando nos referimos a um sacana qualquer, “…epa, que fulano desagradável!”; o facto é que na verdade nos apetece mandá-lo para a “puta que o pariu”, mas não para o ofender, só porque efectivamente esse “fulano desagradável”, é mesmo um grandessíssimo filho da puta. É este o conflito, entre aquilo que nos obrigam e o que realmente nos apetece dizer.

Começamos desta feita a ficar habilitados a destrinçar entre a caralhada ofensiva e uma outra que se nos apodera num quase incompreensível misto de uma natural necessidade e uma qualquer euforia linguística. Cai por terra a velha máxima de que as obscenidades são exclusivas da ofensa. Mas ainda não as podemos dizer.
Pergunto eu: se um gajo bate com toda a força com o dedo mindinho do pé na esquina do guarda-fato, ou com a cabeça no canto do armário da cozinha, como raio querem que se reaja? Com um “ai, Chica que me aleijei”? naaaaa, eu, no mínimo sai-me um sonoro, FOOOOOOOOOO…, que é exactamente o mesmo que dizer, FODA-SE!! FODA-SE!! FODA-SE!! PUTA QUE PARIU ESTE CARALHO DESTE ARMÁRIO, OU LÁ O QUE ESTA MERDA É!!
Ainda e sempre a mordaça moral.

O meu filho de 13 anos sabe-as todas, anda com gravações no telemóvel do Zé e Quim Rocas, que é caralhada que até ferve, porém, está terminantemente proibido (por mim) de dizer qualquer asneira que seja ao pé de qualquer adulto. Só está autorizado (também por mim) a dizer asneiras junto dos amigos da idade dele, mas desde que não esteja nenhum adulto por perto. Não se pode contrariar a natureza, e a destrinça adquire-se não se impinge. A seu tempo irá fazer o devido uso e o respectivo controlo das suas próprias caralhadas (pelo menos assim o espero).

Eu admito, tenho por vezes uma inexplicável necessidade de dizer palavrões. Não sei porquê mas tenho (a tal transcendência). E como a sociedade estipulou esta regra de conduta moral, colocando todas as caralhadas num mesmo saco, não me resta outra alternativa senão recorrer a estratégias.

O meu principal refúgio da caralhada é o carro. Normalmente em simultâneo com a música, e claro está, quando estou sozinho. Quando aparece uma música que se põe a jeito, o Porto Côvo do Rui Veloso por exemplo, fecho os vidros, aumento o volume do rádio e cá vai disto. Fica mais ou menos assim:

(a versão original)
“Roendo uma laranja na falésia
Olhando o mundo azul à minha frente,
Ouvindo um rouxinol nas redondezas,
No calmo improviso do poente”

(a versão adaptada, a minha caralhada profiláctica) (em simultâneo, e dentro do tom)

Roendo um par de mamas na falésia
Olhando aquela puta à minha frente
Ouvindo um paneleiro nas redondezas
No calmo improviso do caralho que os foda

No refrão costumo também repenicar a última sílaba de cada verso. Sai qualquer coisa como:

(a versão original)

“Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Côvo”

(a minha, fico até a parecer um lobo a uivar)

Havia um pessegueiro naquela merda-a-a-a
Plantado por um paneleiro de Odemira-a-a-a
(perdoem-me os habitantes de Odemira, não é nada pessoal, é só circunstancial)
Que dizem por ser cabrão se matou novo-o-o-o
Aqui no lugar deste putedo-o-o-o-o-o-o-o-o-o



Só vos digo que tem um efeito libertador sem qualquer paralelo.
As pessoas vêem-me passar naquele entusiasmo, a minha voz abafada pelo volume do rádio, não são poucas as que comentam: “…fosga-se, aquele gajo gosta mesmo de Rui Veloso!”
Estão tão enganadas. Mal sabem elas o dinheirão que eu estou a poupar em psicólogo.

E não me venham cá com essas merdas de que dizer caralhadas é coisa de gente rude, grosseira e mal formada (também é, mas…)…

Elmano Sádino.
Sabem quem foi? Claro que sabem, Manuel Maria Barbosa l'Hedois du Bocage.
Ah pois é! Esse mesmo.

Antes de mais, Bocage era filho do bacharel José Luís Soares de Barbosa, juiz de fora, ouvidor, e depois advogado, e de D. Mariana Joaquina Xavier l'Hedois Lustoff du Bocage, cujo pai era francês.
Sua mãe era segunda sobrinha da célebre poetisa francesa, madame Marie Anne Le Page du Bocage, tradutora do "Paraíso" de Milton, imitadora da "Morte de Abel", de Gessner, e autora da tragédia "As Amazonas" e do poema épico em dez cantos "A Columbiada", que lhe mereceu a coroa de louros de Voltaire e o primeiro prémio da academia de Rouen.

Ascendência tinha ele.

Bocage estudou os clássicos e as mitologias grega e latina, estudou francês e também latim. Em 1783 foi admitido na Escola da Marinha Real, onde fez estudos regulares, tendo sido nomeado guarda-marinha por D. Maria I, embarcando posteriormente, como oficial de Marinha, para a Índia.

Este desgraçado andou praticamente a vida toda (40 anos) preso. Também, portava-se um bocadinho mal. Desertou algumas vezes, vivia uma vida boémia, e consta que andavam por aí muitos maridos com dores resultantes de problemas de sustentação da cabeça. Mas era principalmente a sua poesia satírica que mais incomodava a sociedade e o poder. Imagine-se que chegou a ser preso acusado de “desordenado nos costumes”. Este homem libertava-se através da caralhada, e não era uma caralhada qualquer, era poesia com os diabos!. Apreciem por exemplo o famoso soneto do Prazer Efémero:

«Dizem que o rei cruel do Averno imundo
Tem entre as pernas caralhaz lanceta,
Para meter do cu na aberta greta
A quem não foder bem cá neste mundo:

Tremei, humanos, deste mal profundo,
Deixai essas lições, sabida peta,
Foda-se a salvo, coma-se a punheta:
Este prazer da vida mais jucundo.

Se pois guardar devemos castidade,
Para que nos deu Deus porras leiteiras,
Senão para foder com liberdade?

Fodam-se, pois, casadas e solteiras,
E seja isto já; que é curta a idade,
E as horas do prazer voam ligeiras!»

Está aqui alguma coisa errada?
Alguém poderá negar que a disposição da rima neste soneto é oposta nos quartetos e cruzada nos tercetos, ou que a rima não é de natureza rica, e com a fonética perfeita? Ninguém! Está aqui uma estrutura perfeita. Uma corajosa pérola do arcadismo lusitano, com marcantes influências dos estilos, clássico e romântico, do séc. XIX.
Uma injustiça! Andaram pura e simplesmente a embirrar com o homem, em especial esse filho da puta desse Intendente da Polícia Pina Manique, (posso ofendê-lo à vontade pois isto passou-se em 1797, não me vai processar com certeza), por causa de quê? Dessa mania, pelos visto antiga, de levar a mal umas caralhadazitas. Ainda por cima que rimavam.
Bocage fazia uso da caralhada para libertar tensões acumuladas, para nivelar o Ph, ou como equilibrador glandular, aquilo que hoje em dia se chama de, ‘STRESS’.
De que é que morreu Bocage?
De ANEURISMA. Aos 40 anos. Estava-se a ver. Só podia dar nisto. Stress acumulado numa mente reprimida.

Millôr Fernandes também escreveu sobre este fenómeno da asneira sofreada, e dá uma imagem interessante, que no mínimo nos sugere a reflexão, (pelo menos a mim sugere), no máximo, remete-nos todos à caralhada uns aos outros, seja lá o isso for, disse ele a determinada altura, referindo-se à expressão, “nem que te fodas”: «…liberta-te, com a consciência tranquila, para outras actividades de maior interesse na tua vida.»

Mas também há os reprimidos, os que se deixaram envolver pelo casulo moralista da sociedade dos que caminham pelo “faz que parece bem”

Batista Bastos por exemplo, esse jornalista e homem das letras, que nunca ninguém ouviu uma caralhada daquela santa boca, (eu pelo menos não ouvi), mas quantas não pensou ele quando fazia aquela tão célebre pergunta em tom revolucionário, “…então onde é que o meu amigo estava no 25 de Abril de 74?”.

Porque razão é que Batista Bastos nãodesenrolou o chorrilho de caralhadas que lhe ficavam entaladas no gorgomilo, (porque eu sei de fonte segura que lhe ficavam) quando os pseudo intelectuais de esquerda, armados em conquistadores da liberdade e da democracia, se engasgavam à sua frente com uma resposta que não tinham? Incompreensível.

A caralhada é transversal, percorre o espaço à velocidade da luz, mais rápido até, já lá está, faz parte do mundo. Fiz uma pesquisa e alguns telefonemas, e descobri as caralhadas doutros países.
Eis só alguns exemplos:

엿먹어 (2), em koreano, (santinho!)

пошел на хуй (2), em russo

ファックする (2), em japonês

Kurva (2), em checo (até apetece responder, “vai-te kurvar tu!”)

odi u kurac (2), em croata

你他妈的 (2), em chinês

vas te faire encule (2), no tão polido e melodioso francês
اللعنه صديق em árabe (2)

É uma autêntica melodia. Até se percebe a entoação de cada uma destas frases e se imaginarmos com muita força, até as conseguimos ouvir.
Etimologicamente a caralhada até tem ênfases que lhe dão uma espécie de vida própria. Vejam só este exemplo:

Queremos reforçar gramaticalmente as qualidades de um líder. Como é o que o fazemos?
Comumente dizemos:

“É um grande líder!”

Mas também podemos enaltecer o líder desta forma:

“É um líder do caralho!”



Reparem que o “caralho” aqui nesta segunda frase, ultrapassa todas as barreiras, penetra nas profundezas do âmago, inatingíveis pelo “grande”, tem uma dimensão muito maior, projecta o líder para patamares de excelência infinitos e inimagináveis. Faço mais uma pergunta: alguém está a ofender alguém? Tem o líder razões para ficar ofendido? De forma alguma, antes pelo contrário.
Até em inglês a coisa dá-se sem dramas:
“It’s a great leader!”, ou “It’s a fuck leader!”

Faço ainda mais uma pergunta:

Se fossem obrigados a escolher, qual dos dois líderes é que vocês seguiam? O primeiro ou o segundo? Eu, definitivamente seguia o segundo.

Por vezes faz falta uma caralhada. Não é uma caralhada banal, aquela que se diz fortuitamente tão comum nalgumas bocas por aí. É sim aquela dual caralhada, a que se profere com um sorriso nos lábios, ou com o olhar taciturno projectado na vida. É a caralhada libertadora, a caralhada que nos apazigua, a caralhada que nos sai espontânea quando entalamos o prepúcio no fecho ‘éclair’, ou a que nos ocorre para agigantar no fim dum filme do Godard, “…que filme do caralho!”

O GRANDE POETA MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE, QUANDO, UM DIA, AO ENTRAR, ENGANADO, NUM QUARTO DUM HOTEL ONDE ESTAVA HOSPEDADO, VIU UMAS FUFAS... SAÍRAM-LHE IMEDIATAMENTE OS SEGUINTES VERSOS: MENINAS QUE SOIS TÃO BOAS, PORQUE ESTAIS A FAZER ISSO? PORQUE COMEIS PÃO COM PÃO, SE É TÃO BOM PÃO COM CHOURIÇO?